‘Margeando o caos’ de Majela Colares

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majela-colares“MARGEANDO O CAOS / VOREJANT EL CAOS” de MAJELA COLARES… Analisado pelo poeta catalão Ricard Garcia, em catalão. Da língua catalã, o poeta e tradutor Joan Navarro, verteu para o espanhol. Do espanhol o poeta e tradutor Társio Pinheiro, nos trouxe para o português. A seguir:

Margeando o caos como quem margeia o princípio de tudo, do tempo, da vida, das palavras… É assim que transcorre a poesia de Majela Colares, que, traduzida por Joan Navarro, chega até nós em uma edição bilíngue publicada pela Confraria do Vento (Rio de Janeiro, 2013).

Antes de ler este livro, eu não conhecia Majela Colares. Mas agora, após sua leitura e releitura, sinto o poeta muito perto, sobretudo porque sua poesia não é do tipo que se entretém com ornamentos ou com frivolidades que geralmente entorpecem o nosso olhar. Ao contrário, Majela Colares constrói seus versos com uma precisão e uma limpeza invejáveis. E essa beleza conduz o leitor menos avisado para aquilo que o poeta considera essencial: a pedra, a luz, a palavra, o tempo, a memória…

A meu ver, Margeando o caos/Vorajant el caos é um livro no qual poesia e filosofia estão muito próximas uma da outra. Por meio de sua leitura, pude não só desfrutar a beleza das palavras e dos versos (na retina a insônia fende o olho / en la retina l’insomni esberla l’ull), como também percebi que, só por meio do valor estético que Majela Colares dá as suas palavras, é possível perceber nelas sua grandeza e, ao mesmo tempo, as emoções e ideias que sua poesia contém. O poema intitulado “Les marques deltemps” é um exemplo do que quero dizer. Nesse poema, com apenas sete versos e com uma depuração extrema da linguagem, o poeta nos mostra o tempo, fazendo-nos sentir e comprovar como deixa de ser um fluidoabstrato para se fazer visível em nós na forma de corpo e matéria:

o último impulso do segundo antes
ao projetar-se no após segundo

risca no tempo cicatrizes, fendas
(o largo corte invariável, sempre)
que esculpe a forma virtual do instante

no confundível e abstrato mármore
imagem sólida do momento único

Pois bem, os versos deste livro são assim: esculpidos com a mão firme e o pulso. E eles se apresentam como a lâmina de uma faca, como linha divisória entre duas vertentes, como o limite de um penhasco a que o poeta recorre e contorna se esquivando do caos e perseguindo o equilíbrio. Talvez seja por isso que os elementos da poesia de Majela Colares com frequência são convocados como no Canto VIII: corpo e alma, pedra e sonhos, mãos e pés, céu e terra, tudo e nada… E não só nesse canto: o livro como um todo está construído com uma arquitetura perfeita, a qual tem como objetivo nos falar de como a matéria fluídica ou a matéria inerte (como a luz, a noite, a vida, a pedra, a palavra ou a memória) se constituem numa única paisagem que converge para nós e nos convida, com este livro sábio, a fazer dele infinitas leituras.

RICARD GARCIA, poeta catalão
(Tradução: Társio Pinheiro)